No dia de hoje eu resolvi dedicar meu dia para exercitar meu talento literário escrevendo um romance.
Numa praia deserta, numa tarde ensolarada, a suave brisa tomava podia ser sentida na praia. Mas, se podia ser sentida, havia alguém lá para senti-la, logo, a praia não estava deserta. Segundo Parmênides, se a praia é deserta, ela não pose ser não deserta, pois, isto contrariaria o princípio de identidade. Logo, se a praia era deserta, não dá para saber se havia brisa ou se estava ensolarada. A não ser pela previsão do tempo que pode indicar que assim seja. Mas, cabe aí imaginarmos que estivesse ensolarada. A única maneira de sabermos é se alguém fosse lá, assim, poderia constatar como a teoria do Gato de Schrödinger, se estava ensolarado, com uma suave brisa e mesmo se está deserta. Contudo, se alguém fosse lá, mesmo que constatasse que estava ensolarada e com uma leve brisa, ela não seria mais deserta. Logo, só nos resta especularmos que numa praia deserta, a tarde estava ensolarada e havia uma suave brisa.
Hoje me dediquei a um experimento: pensar como um bolsominiom.
Acordei às 4h20 da manhã, tendo dormido apenas 3h. Assim, me levantei sonolento, sem conseguir raciocinar direito.
Sem fazer desjejum, comecei a beber várias doses de cachaça Pirassununga 51, a mais barata que tinha, enquanto assistia aulas online do Olavo de Carvalho.
Em seguida assisti a Brasil de Fato, Big Brother Brasil, Folha Política, Brasil Urgente, Fala que eu te escuto, Show da fé, Vitória em Cristo e Rede Mundial. Tudo acompanhado de doses de cachaça.
Após 14 h52 min. de maratona assistindo a tudo isso, adicionei todos os membros da família Bolsonaro, Dep. Feliciano e Francesquini e 8 perfis fake no meu Twitter e curti tudo que eles postavam. Inclusive espalhei 105 Fake News, como a que o coronavírus é uma arma chinesa, que os governadores e prefeitos são golpistas, que a pandemia chegou no Brasil no carnaval, que tudo não passa de histeria e outros absurdos. Lá se foram mais 2h32min.
Fiz doações para Valdomiro, RR Soares e Macedo e depois li “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota” e disse inúmeras vezes para mim mesmo que Olavo de Carvalho era um “Filósofo”.
Após 6L200 de cachaça e enchendo minha cabeça com tudo quanto era bobagem que encontrei, vomite em algum canto na sala, vi gnomos dançando e um unicórnio passou por mim, mas, não sei para onde foi por não conseguir ficar em pé e nem saber onde eu mesmo estava.
Mesmo tonto e sem conseguir raciocinar direito, não consegui negar o fato de que Bolsonaro não é competente para ocupar o cargo que ocupa e que seus seguidores são pessoas medíocres e medianas que encontram nele uma forma de se sentirem especial.
Após o desjejum corri na garagem de casa por uma hora consecutiva, totalizando 5 Km e 26 m.
Depois peguei 6 pacotes de arroz de 5 kg cada, 3 em cada braço e fiz exercício de agachamento.
350 abdominais e 172 flexões.
Então, resolvi pegar pesado e propus para a minha mulher mudarmos os móveis da sala de lugar. Arrastei sofás, mesinha, abajur, vaso, barzinho entre outros por 10h34min. Por fim ela finalmente chegou a uma decisão onde cada coisa deveria ficar, que era exatamente onde estavam antes da mudança.
Hoje resolve ocupar meu tempo vasculhando as redes sociais, comecei pelo Facebook e constatei:
- 2 Perfis fake;
- 3 caras pobres reclamando que só tem mulher interesseira;
- 2 buchas de canhão reclamando que tem um monte de homem casado dando em cima;
- 2 garotas que estão saindo com o mesmo cara;
- 24 pessoas convictas que o coronavírus é punição de deus por causa do carnaval;
- 18 pessoas crentes que o coronavírus é uma arma biológica dos comunistas para desestabilizar o governo Bolsonaro, com apoio da imprensa golpista internacional, políticos corruptos (que são todos os que não o apoiam) e nações europeias que estão com medo da economia tupiniquim que está a arrasar no mercado mundial;
- 32 pessoas acreditam que o Lula ainda é presidente do Brasil, pois o acusam de ser o responsável pela pandemia se espalhar por aqui;
- 2 garotos mimados pela mãe e que não conseguem ficar com ninguém atacando as mulheres num ato machista para se sentirem fodões;
- 12 pessoas acreditam que deus vai salvar o povo do cornavírus, mas, ficam a divulgar informações sobre avanços científicos contra ele;
- 1 empresário salafrário que não tem nada em seu nome devido aos inúmeros processos defendendo o governo Bolsonaro por ele estar a “limpar” o Brasil da corrupção;
- 1 estelionatário com histórico de prisão e golpes em conhecidos dizendo que Bolsonaro é atacado por ser honesto e por estar a limpar o Brasil dos corruptos do PT;
- 2 velhos frustrados por acharem que merecem mais reconhecimento nas suas vidas medíocres atacando qualquer crítica ao Bolsonaro, mais especificamente atacando a pessoa que fez a crítica do que ela em si;
- 2 que se aposentaram antes dos 60 anos defendendo que o Brasil está quebrado e não pode combater o coronavírus devido ao rombo da previdência;
- 1 ex-funcionário público aposentado atacando os funcionários públicos de serem vagabundos;
- 13 pessoas postando sobre política em grupos de venda, demonstrando que não sabem o propósito dali;
- 56 pessoas divulgando Fake News e crentes que são verdades;
- 102 que acham que a verdade é relativa para cada um, mesmo que isto significa negar a realidade;
- 17 ex-alunos que não estudavam e não davam importância aos professores se achando os maiorais e sabichões, querendo dar lição em todo mundo a partir de Fake News;
- 26 pessoas acham que a cloroquina realmente vai curar as pessoas em razão do Bolsonaro ter dito isso;
- 112 que se consideram de direita, mas que agora postam ações do Estado contra o coranavírus;
- 52 pessoas pregam que a imprensa não mostra o que Bolsonaro faz de bom e divulgam Fake News para mostrar que há ações boas no governo;
- 2 autônomos que não trabalham com carteira assinada exigindo o fim das leis trabalhistas;
- 12 pessoas que não foram bons alunos na escola e não fizeram faculdade reclamando que só tem drogados nas universidades;
- 19 pessoas sem faculdade defendendo que as universidades públicas deveriam ser privatizadas;
- 89 pessoas reclamando que o brasileiro é egoísta e não pensa no próximo por correr nos mercados e fazer estoque de papel higiênico, mas consideram normal o Brasil ter concentração de renda;
- 432 amigos meus no Facebook nunca curtiram ou comentaram nada em 6 meses na minha página.
Acordei às 9h50 e já fumei 5 maços de cigarros, tomei 3,2 litros de café, preparei e comi ovos pochê, panquecas e torrada francesa, montei um quebra cabeça de 1.500 peças, reli os Sertões, limpei a casa, lavei a moto, escovei os pelos do gato.
Até o presente momento não sei o que fazer após às 12h. Prof. Fábio José @FiloProfessor
Imoral censura: o que se
pode, ou não pode ver no museu
Devagar, lentamente, começaram a
surgir indícios. Esparsos e irrelevantes, não ligámos. Continuaram, tornaram-se
mais frequentes e preocupantes, ficou impossível não lhes darmos importância.
Quando, em 2011, o Museum of Fine
Arts, em Boston, realizou a exposição “Degas and the nude”, em colaboração com o
Musée d’Orsay, o escândalo estalou, face às representações do nu académico lado
a lado com os “brothel monotypes”, estimulando um pendor voyeurista, curioso do
universo íntimo, algo decadente, das prostitutas e dançarinas que enchem as
telas de Degas. Pensámos que seria algo circunscrito à sociedade americana,
tradicionalista e conservadora, que aproveitava para trazer à tona as acusações
de antissemitismo e as suspeições em relação à vida celibatária do pintor.
Desde essa altura, vão surgindo
manifestações contra a exposição do corpo e a sua utilização/representação na
arte. As redes sociais vieram dar uma nova dimensão a esta questão; em
particular, o Facebook tem vindo a aplicar algoritmos para análise do conteúdo
das imagens e identificar os nus, para os censurar, eliminando-os e bloqueando
a pessoa que os disponibilizou.
Tal como após o Renascimento, as
disposições vieram impor o decoro, também agora, depois de a juventude da
década de 1960 ter reivindicado a liberdade de assumir o corpo em todas as
dimensões da sua fisicalidade e de, na década de 1990, a arte ter sido
deliberadamente provocadora, vemos aparecer uma nova mentalidade com
dificuldade em aceitar coisas que há muito (muito antes de 1960) eram tidas
como normais. Como diz Jonathan Jones (2018, 31 jan.), jornalista e crítico de
arte no The Guardian: “Now the tables have turned, and it’s cool to
be appalled by – in this case – art made over a century ago. I can’t pretend to
respect such authoritarianism. It is the just the spectre of an oppressive past
wearing new clothes”.
Em novembro de 2017, o Museu de Arte
de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP), inaugurou a exposição “Histórias da Sexualidade”, aguardada com maior
expetativa (e polémica!) depois de em setembro a exposição “Queermuseu:
Cartografias da diferença na arte brasileira”, apresentada no
espaço Santander Cultural, em Porto Alegre, e abordando questões de
género e de diversidade sexual, ter sido cancelada por alegadas ameaças à família
brasileira e na sequência de uma onde de ataques desencadeados nas redes
sociais. Em São Paulo, o MASP primeiro, anunciou a interdição da exposição a
menores de 18 anos, acabando por rever esta posição e permitir a entrada de
crianças e adolescentes, na condição (!) de se fazerem acompanhados pelos
respetivos pais ou responsáveis.
Em dezembro, quando o movimento
#MeToo e o escândalo do abuso e violência sexual exercidos sobre as mulheres de
Hollywood ganhava impacto em todo o mundo, o Metropolitan Musuem of Art, em
Nova Yorque, foi alvo de uma petição para retirar a pintura Thérèse Dreaming (1938),
de Balthus (Balthasar Klossowski), sob a denúncia de o museu promover uma
perturbadora visão romântica sobre a sexualização infantil e incitar a
coisificação das crianças. Balthus, conhecido precisamente pela forma como
captou o universo adolescente nas suas pinturas, retrata, nesta pintura, uma
menina Thérèse Blanchard, com cerca de 12 ou 13 anos, sentada numa cadeira, com
os braços erguidos sobre a cabeça e uma perna levantada, deixando ver a roupa
interior. Na realidade, em 2013, o MET tinha organizado a exposição “Balthus:
Cats and Girls: Paintings and Provocations”, à entrada da qual pôs o seguinte
aviso: “Some of the paintings in this exhibition may be disturbing to some
visitors,’ using this to argue that the Met ‘understand[s] the implications of
displaying his art as a part of their permanent collection.” (cfr. Elkin, 2017,
19 dez.) A petição obteve quase 9000 assinaturas em menos de uma semana, mas
não conseguiu obrigar o museu a retirar a obra.
O mesmo puritanismo alcança a
“civilizada” e liberal Europa. No âmbito das comemorações do Fin-de-siècle
Vienna (vd. Schorske, 2012), foram organizadas exposições sobre a obra
do pintor austríaco Egon Schiele, mas a Grã-Bretanha e a Alemanha recusaram a
respetiva campanha publicitária alegando tratar-se de uma obra pornográfica e
não ser ético expor a nudez integral em espaços públicos; em contrapartida,
decidiram colocar uma banda a cobrir os genitais das figuras, com a
#ToArtItsFreedom e a frase “Sorry, 100 years old but still too daring today”.
Norbert Kettner, chefe do WienTourismus (serviços do turismo vienense),
esclareceu esta opção: “We want to show people just how far ahead of their time
Vienna and its protagonists really were […] And also encourage the audience to
scrutinize how much really has — or hasn’t — changed in terms of openness and
attitudes in society over the times.” (cit. in Bradley, 2017, 10 nov.)
Em finais de janeiro passado, a Manchester Art Gallery retirou
do espaço expositivo a pintura Hylas and the Nymphs (Hilas e
as Ninfas), do pintor pré-Rafaelista John William Waterhouse e datada de 1896,
na qual um grupo de mulheres jovens, nuas, mas submersas num lago de nenúfares,
procura seduzir um homem que se encontra na magem. Embora o afastamento da
pintura parecesse tratar-se de uma resposta ao movimento #MeToo, Clare
Gannaway, curadora da galeria de arte contemporânea rejeita as acusações de
censura, afirmando tratar-se de um projeto-experimental desenvolvido porSonia Boyce, o qual visa criar o debate em torno da obra de arte e cujos
resultados serão expostos em março:
It wasn’t about denying the existence
of particular artworks. […] For me personally, there is a sense of
embarrassment that we haven’t dealt with it sooner. Our attention has been
elsewhere … we’ve collectively forgotten to look at this space and think about
it properly. We want to do something about it now because we have forgotten
about it for so long. (Gannaway, cit. in Brown, 2018, 31 jan.)
Embora em finais de janeiro ainda não
fosse certo o regresso da pintura ao espaço expositivo – “We think it probably
will return, yes, but hopefully contextualised quite differently” (Id., ibid.)
– certo é que já se encontra novamente em exposição. Mas, a polémica, essa, não
terminou, entre os que receiam estarmos perante um perigoso precedente de
pintura em museus e os que defendem a necessidade de iniciar um debate sério
acerca da presença da massiva representação da mulher, ou do nu feminino, na
arte ocidental, em confronto com a quase ausência de artistas-mulheres nos
museus.
A questão é válida e pertinente. O
que não invalida a perversidade de estar a ser usada como argumento para
justificar um ato de censura, tendo subjacente a arrogância e prepotência de
quem pode decidir o discurso museológico e se atribui o direito de escolher
aquilo que cada um de nós deve ver.
- Assista ao vídeo sobre a Semana de Arte Moderna de 1922.
- Elabora uma DISSERTAÇÃO sobre o
seguinte tema: “A importância da arte para a sociedade e as razões dela causar
revoltas ao questionar os valores sociais”.